Ataque aos EUA em Portugal: Governo português cede (outra vez) aos interesses do Partido Comunista Chinês

O spinning ao serviço do Partido Comunista Chinês está mais oleado do que nunca em Portugal: mais uma historieta que visa prejudicar interesses económicos dos EUA em benefício do regime bárbaro de Beijing. Desta feita, a vítima é a Cloudfare, empresa de serviços tecnológicos sediada em São Francisco, Califórnia. Perante esta torrente de notícias e decisões do Governo português, torna-se cada vez mais claro de que lado o poder político de Lisboa se situa; está com o Partido Comunista Chinês. Daí a sucessão de historietas que têm surgido na comunicação social portuguesa nas últimas semanas.

Sejamos claros: isto não é jornalismo; isto reconduz-se a uma operação de intelligence muito bem urdida ao serviço dos interesses do Partido Comunista Chinês. O diabo (do regime comunista chinês) está sempre discreto, nos detalhes – uma análise atenta deteta, no entanto, um padrão constante de atuação.

Em termos gerais: a intel chinese, primeiro, usa a comunicação social para criar um problema que afete um seu adversário, em área que o Partido Comunista Chinês considera prioritária em cada momento; segundo, provoca uma reação de uma entidade que tenha controlo sobre o seu alvo (pode ser uma Universidade, uma Faculdade ou o Governo, como é o caso sub judice) ; terceiro, estigmatiza o alvo continuamente de forma a consolidar os seus interesses e quebrar, de imediato, sem redenção, o inimigo; quarto, os interesses chineses nunca aparecem, nunca respondem diretamente – pelo contrário, manipulam nacionais, usam estratégias de leverage sobre decisores políticos , nunca falam de questões políticas, limitando-se a matérias económico-financeiras; quinto, as autoridades diplomáticas chinesas só abordam matérias não divisivas, sempre numa lógica positiva, agregadora, que reforce o sentimento nacional dominante em cada contexto económico e social; sexto, perante o vazio gerado pela quebra do inimigo (maxime: os EUA), o Partido Comunista Chinês apresenta, como bom samaritano, sob a forma de um gesto de pura generosidade, uma solução para o preencher, mobilizando as suas empresas nacionais.

Sempre mobilizando ativos de intel nacional chinesa para o país em causa – ao mesmo tempo que contrata empresas locais, de cada país, para promover ações de promoção dos interesses chineses, de preferência com ligações ao poder político vigente ou com experiência pretérita nos serviços de intel nacionais dos países em causa (no caso: em Portugal).

Foi o que sucedeu no caso da Cloudfare.

Primeiro: todo o enredo é ridículo – todos os que têm conhecimento de causa sabem que os EUA jamais atuariam da forma que é apontada nas notícias/acusações que lhe têm sido imputadas. Se a NSA ou a CIA quisessem, de facto, a informação dos censos portugueses , não precisariam da Cloudfare para rigorosamente nada. É tudo estória. Tudo para atentar, mais uma vez, contra os interesses de uma empresa norte-americana e, por conseguinte, dos legítimos interesses económicos dos EUA.

Segundo: estamos perante o domínio de data, de informação. Ora, qual é um dos principais interesses do Partido Comunista Chinês em Portugal? Precisamente, o mercado da data, da informação, dos dados pessoais dos cidadãos portugueses.

A China Comunista quer afastar tanto quanto possível os EUA do acesso a informação: informação é poder. A informação, nos equilíbrios geopolíticos hodiernos, é uma arma decisiva para liderar o mundo. Não é por acaso a atração que as empresas controladas pelo Partido Comunista Chinês têm sentido pelo investimento na área da saúde e dos seguros em Portugal. O objetivo é obter informações pessoais sobre cidadãos portugueses.

Não é também por acaso que este ataque a uma empresa americana, atuando na área tecnológica e da informação, tenha ocorrido uma semana depois do anúncio do investimento da Davidson Kempner (um fundo norte-americano) na construção de um data center em Sines.

Pois bem, Sines é um local estratégico para o Partido Comunista Chinês – o controlo do Porto de Sines é, desde há muito, uma prioridade máxima da estratégia OBOR dos comunistas chineses. No entanto, o controlo deste local estratégico perde parte do seu valor geopolítico se a informação (a data) estiver no domínio do inimigo americano.

Donde: pese embora o alvo agora seja a Cloudfare, na verdade, o end game do Partido Comunista Chinês é impedir a presença dos EUA em Sines, quer no controlo do porto (das comunicações), quer no controlo da informação. Não olvidemos que a China não faz guerra; faz guerrilha. A estratégia do Partido Comunista Chinês é encetar uma guerra ilimitada (unrestricted warfare) e permanente.

A guerra, neste caso, já começou: o primeiro alvo foi a Cloudfare para servir de exemplo para outras empresas norte-americanas que colidam com os interesses estratégicos chineses em Portugal e em Espanha (onde o MO é igual).

O objetivo é impedir que os EUA assumam posição de relevo em Sines – em breve, uma notícia parecida (envolvendo espionagem, NS, CIA…) aparecerá em relação ao fundo Davidson Kempner para forçar a sua saída em benefício de empresa chinesa ou para criar atritos na relação entre os investidores norte-americanos e as autoridades portuguesas.

Convém, ainda, notar que esta campanha contra a Cloudfare tem ainda que ver como uma reação de contra-informação face ao Relatório do SIS que apontava a China como responsável por ações de espionagem e de cyberattack contra o Estado português…Basicamente, o spin do Partido Comunista Chinês cria aqui uma manobra de diversão: não é a China que espia, mas é o “verdadeiro malandro e terrível país EUA” que usa empresas privadas para espiar todos os cidadãos portugueses…Típica e clássica counter-intelligence.

Isto já para não dizer outras razões mesquinhas: o desejo de vingança de algumas figuras que acham que os EUA frustraram as suas ambições pessoais, políticas e empresariais recentes…

Terceiro: não é coincidência que, nas últimas semanas, o novo Embaixador da China Comunista em Lisboa, Zhao Betang , se tornou colunista do “DN”, às segundas-feiras (o que deve ser uma originalidade bem portuguesa…). Nas últimas quatro semanas, ininterruptamente, sempre à segunda-feira, Zhao Betang tem difundido a propaganda chinesa no DN…

Quarto: a China conseguiu que o Governo português reagisse de imediato, suspendendo o contrato com a Cloudfare. Incrível: um Governo que demora tanto a decidir, que prefere sempre apurar tudo antes de tomar decisões – neste caso particular, resolveu decidir, em prejuízo da empresa norte-americana, de imediato. Sem dúvidas, nem hesitações, nem esclarecimentos prévios. A notícia foi publicada; o Governo lá fez a vontade ao Partido Comunista Chinês.

É bizarramente preocupante a dualidade de critérios do Governo português: suspeitas publicadas em jornal levam ao afastamento de empresa norte-americana – diversamente, o Governo dispõe de ampla informação sobre a transferência maciça de dados pessoais dos portugueses para Beijing, por via de empresas controladas pelo Partido Comunista Chinês a operar em Portugal, sobretudo nas áreas da saúde e dos seguros, optando por nada fazer. Pelo contrário: a porta mantém-se escancarada para investimentos do Partido Comunista Chinês e o Governo ainda nem sequer teve coragem de anunciar o afastamento da Huawei do 5G por razões de segurança nacional.

Esta dualidade de critérios, esta deferência face à China Comunista que contrasta com a prepotência perante empresas norte-americanas – mostra eloquentemente de que lado está o Governo português. Está ao lado da tirania do regime chinês em detrimento do Mundo Livre.

Em suma: o ataque à CloudFare é apenas mais um episódio de uma estratégia que foi iniciada há algum tempo de enfraquecimento contínuo dos interesses estratégico-económicos dos EUA em Portugal – desde empresas de transporte até empresas de informação, passando pela indústria da moda, nada tem escapado à fúria do Governo português, empenhado na sua relação estratégica com a China.

Primeiro, aparece uma notícia no jornal; depois, logo de seguida, o Governo decide contra empresas dos EUA. E são sempre empresas dos EUA! O padrão, objetivo e subjetivo, nunca muda… Ah, já agora, lembram-se da campanha que foi montada contra o Embaixador George Glass, depois de entrevista sobre Porto de Sines? Pois…mesmo MO…e sempre as mesmas personagens na sombra…

Joâo Lemos Esteves
Joâo Lemos Esteves

Esteves is the INISEG (Institute for Global Security Studies) Representative to the USA and a contributor to “Israel Hayom” (Israel), “Jornal da Cidade” (Brasil) and “SOL” (Portugal). He is also a lecturer at the University of Lisbon, Law School.